Impressões de leitura de "Hollywood" de Gore Vidal
Quero estrear no meu blog com as impressões de leitura do mais recente livro que li. Trata-se de "Hollywood" de Gore Vidal, o escritor norte americano autor de "Criação", o primeiro livro que li dele. Lá como cá, trata-se de ficção histórica, em que o autor cria um núcleo de personagens fictícios que interagem e atuam com personagens e contextos históricos que existiram de verdade no tempo e no espaço. Em "Criação", ele criou Ciro Spitema, situando-o no antigo império persa de Ciro, Dário e Artaxexes em permanente guerra com a Grécia antiga, enquanto expande seus domínios sobre o oriente próximo. Sendo neto de Zaratustra, também chamado de Zoroastro, o criador da religião adotada pelo monarca, é admitido na corte, estuda com os filhos do imperador e depois de adulto, atua como embaixador do império em viagens para a China e a Índia antiga, onde convive com os grandes profetas da Ásia, como Confúcio e Buda. No final da vida, atua como embaixador na Grécia, onde convive com Sócrates. Um livro extraordinário onde o ator certamente fez rigorosa pesquisa histórica. Já "Hollywood" o autor situou nos Estados Unidos, entre 1917 e 1923, quando do governo presidencial de Woodrow Wilson, que negociou a entrada do país na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e tentou negociar a paz no pós guerra com a tentativa de criação da Liga das Nações, fracassada devido a oposição no senado. Acredito que os diálogos e algumas situações não são literais, mas o contexto histórico é crível. Garanti isso pesquisando. O núcleo fictício principal é constituído dos irmãos Blaise e Caroline Sanford, que são magnatas da imprensa, donos do jornal The Washington Tribune, aquela altura muito bajulados pela elite politica local de Washington, senadores, congressistas e altos funcionários do governo central de Washington. Tem também o senador Day, que é amante e pai da filha de Caroline. Essa condição de amantes permeia toda a história, parecendo que a traição era recorrente naquele ambiente. Todos os poderosos tem uma, quase sempre casada. "Hollywood" é o quinto livro de uma heptologia, uma série de sete livros que percorre a história americana por um período de uns cem anos, desde antes da guerra da Secessão, a ascensão e o assassinato de Lincoln, até depois da morte de Franklin Delano Roosevelt e o fim da segunda guerra mundial. Não tem a força criativa de "Criação" mas é também um livro muito bom, haja vista até que Gore Vidal, vindo de família ilustre e politica, está no seu ambiente. Sendo um homossexual assumido num ambiente puritano, pelo menos nas aparências, talvez faça com que Gore Vidal não prescinda do cinismo e no sarcasmo na tratamento dos seus compatriotas e das relações sociais, econômicas e politicas entre eles. A ação se dá entre Washington, a capital do país, e a nascente Hollywood e sua indústria do cinema. Os personagens da politica então são Woodrow Wilson, o 28º presidente, Warren G. Harding, o sucessor de Wilson e 29º presidente, Theodore e seu primo Franklin D. Rossevelt, que nessa altura ainda não se sabe que será também um futuro presidente, Williiam Randolph Hearst, magnata da imprensa, outros políticos poderosos e o bajulador profissional Jess Smith, um dos quatro pontos de vista pelos quais o autor discorres a história. Jess Smith é personagem central no governo de Harding, uma eminência parda cujo objetivo é ganhar dinheiro na politica através da corrupção que irá arruinar a reputação do presidente, de quem é um dos auxiliares mais diretos, mesmo sem cargo oficial. O principal escândalo em que vai se meter, que entrou para a história como o "Teapot Dome", junto com Dougherty, secretário do presidente, e de quem é o braço direito é a concessão ilegal de terras petrolíferas da marinha para a iniciativa privada, mediante propina. Isso acelerará a morte do presidente antes do término do mandato, estando ele já adoentado precocemente. Caroline se transformará de jornalista em atriz de Hollywood no decorrer da história. Parece que o talento dramático não é condição para se tornar atriz ou ator no cinema mudo dos anos 10 e 20. Basta um rosto bonito e fotografável e Caroline Sanford tem ambos, apesar da maturidade dos quarenta anos. Nada que uma maquiagem e um angulo bem feito não corrija. Em Hollywood, Caroline convive com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks, Marion Davis, Mabel Normand e o diretor William Desmond Taylor, que seria assassinado. Como personagem fictício, Caroline troca de amante, o senador Day e tem um caso com Tim Farrel, um diretor de cinema polemico. O autor tem o cuidado de não misturar os personagens fictícios e reais em relações afetivas ou sexuais. Eles só interagem socialmente. Os primeiros filmes são utilizados como ferramenta de propaganda politica, incitando o público primeiro contra os boches, os inimigos alemães, no contexto da primeira guerra mundial, e depois contra os bolcheviques, os simpatizantes do comunismo recém implantado na então Rússia, em outubro de 1917, cuja exemplo de ascensão dos proletários ao poder, com a queda do Czar, parece incendiar a imaginação dos operários pelo mundo todo, principalmente na Europa mas também nas Américas. Eclodem a criação de sindicatos e os protestos por melhores condições de salários. Sendo isto mal visto pela elite politica e empresarial, que usam os filmes da Hollywood emergente como propaganda do capital e do modelo americano contra o inimigo comunista "malvado". Como podem ver, a caça aos comunistas começou bem antes do macarthismo dos anos 40 e 50. Vidal não economiza nas criticas, embora veladas, aos costumes, cinismo e hipocrisia dessa gente. É um bom livro. Uma forma de entretenimento enquanto se aprende história. Recomendo a leitura.
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