Meus Verdes Anos de José Lins do Rego: impressões de leitura.
Concluí a leitura de "Meus Verdes Anos", o livro de memórias de José Lins do Rego. Com Isso, o mestre paraibano se torna o escritor que mais li, até agora. Li dez dos seus doze romances. Menino de Engenho, Doidinho, Bangue, O Moleque Ricardo, Usina, Pureza, Pedra Bonita, Riacho Doce, Cangaceiros e Fogo Morto, considerada sua obra prima. Um livro de estorias infantis, "Historias da Velha Totonia", e esse livro de memórias da sua infância. Zerei o meu acervo digital de Ze Lins, mas não esgotei a sua produção bibliográfica. Faltam dois romances, Eurídice e Agua-Mae, os únicos ambientados fora do Nordeste, e sua produção de artigos, ensaios, crônicas de viagem, palestras. Que eu saiba, O Ze não produziu contos, estórias curtas, mas curiosamente ele tem um livro de crônicas todo sobre o Flamengo, sua paixão futebolística, adquirida quando mudou de Maceió para o Rio de Janeiro, em 1935. Parece que antes disso, Ze Lins nao demonstrava interesse pelo entao nobre esporte bretão, por essas bandas já se abrasileirando. Foi a partir da mudança para o Rio que ele foi cariocando, segundo interessante artigo que li de sua filha Maria Elisabeth Lins do Rego. Esse acariocamento acabou por levar a amar fanaticamente o futebol e o Flamengo, o time mais popular do Rio e do Brasil, já naquela época com a nacionalização e a interiorização das ondas das grandes potências radialisticas da então capital Federal, influenciando um mundão de gente. Ze Lins estava era in loco naqueles espetáculos de cores e grandes jogadas, com forte apelo popular. Ainda não havia o Maracanã, mas tinha São Januário, Laranjeiras e a Gavea, que imagino também sediava jogos oficiais. Sendo um homem que amava o povo, tendo extraído daí toda a matéria prima de sua literatura, ele foi abduzido pelo esporte das massas de tal forma que passou a se dividir entre um homem de letras e dirigente de futebol, tendo sido cartola, expressão que não combinava com ele, do próprio Flamengo e da antiga CBD, a Confederação Brasileira de Desportos. Sobre José Lins do Rego, há vasto material biobliografico e até vídeos na internet. Curiosamente, não vi nenhum vídeo de José Lins em movimento, apenas um registro fonográfico de uma entrevista dada a um canal português e fotografias. Isso no Youtube. Voltemos a "Meus Verdes Anos". Escrito em 1956, apenas um ano antes de sua morte, ocorrida em setembro de 1957, é um livro confessional em que Ze Lins se desnuda no próprio menino de engenho. O Carlinhos era o Ze nas suas angústias de menino orfao de mãe, criado pelo avô materno e pelas tias, deliberadamente afastado das suas raízes paternas. Há todo ali na natureza exuberante do mundo do engenho um universo de descobertas para o menino triste e adoentado. Solto no mundo com os moleques do eito, Ricardo com eles, o menino descobre os banhos de rio, as brincadeiras dos cangapes na água, o sexo, primeiro com as vacas do avô, depois com as primas e as neguinhas filhas da casa. É uma infância adorável, do ponto de vista do menimo, recordada até o fim, primeiro como ficção, depois como memória escrita. Coronel José Paulino, o inventando, é todo o velho Babu, Cazuza para a mulher, José Lins, o mesmo nome do neto, para os demais. Todo ele um patriarca rural poderoso e rico que recebia em casa os políticos, o povo que deliberava com ele e até o temido cangaceiro Antonio Silvino, que o respeitava como todo o povo da região. Isso eram anos 1910 e ainda não havia Lampião. O Grande cangaceiro, amado por uns, idealizado como herói de romances medievais de cavalaria, temido pela maioria. Carlinhos e Ze Lins idealizavam-no como esse herói. Tio Juca do Ciclo da Cana de Açúcar é totalmente inventado. O velho Babu não teve filhos homens, apenas mulheres. A Amélia, mãe de Ze Lins, Mercês, Firmina, Iaiá, Maria e Naninha, seis no total. Amélia, a mãe, morreu quando o Ze tinha seis meses vida, então, primeiro Maria e depois Naninha, assumiram esse papel de mãe postiça, ambas com genuíno carinho materno. O casamento das tias marcou a ruptura, a segunda e a terceira perdas maternas do Menino Ze ou Dede. O casamento da tia Maria é romanceado no Menino de Engenho. O de Naninha, não. Não lembro se sua figura foi aproveitada na ficção. Estão nas memórias as negras da cozinha, Generosa, Avelina e outras, o moleque Ricardo, que ganhou até um romance com sua persona, Lula de Holanda, Vitorino Carneiro da Cunha, o alcunhado "Papa Rabo", a que reagia enfurecido, apupado pela canalha da região, outros personagens menores, todos eles aproveitados com nome e tudo na literatura do Ciclo da Cana de Açúcar, principalmente em Menino de Engenho e Fogo Morto, onde dois deles são personagens nucleares, Lula e Vitorino, que juntos com o seleiro José Amaro, nomeiam as três partes do livro. Fico devendo se Ze Amaro foi invenção de Ze Lins, mas parece que sim. Manuel Bandeira dizia que Lins do Rego era um motor que só funcionava queimando bagaço de cana. E era mesmo. A melhor literatura de Ze Lins era produzida quando ele se interiorava e se introduzindo por dentro de sua memória, resgatava com ele o povo e o lugar dos seus primeiros anos. Eram anos idealizados nas lembranças. Os cabras dos eitos e dos partidos de cana sofriam com as jornadas exaustivas e a comida pobre, mas não escassa. Na memória do menino, o avô era quase adorado pela sua cabroeira. Um homem justo, honrado e generoso. Ele tira Ricardo do engenho e o torna literatura como personagem de livro, mas num contexto urbano, no Recife dos anos vinte e trinta, transformando Ricardo em operário de padaria, mantendo nele a condição de pobreza remediada e por fim metendo ele em greves e agitações sindicais que marcaram a época e que culminaram com sua prisão em Fernando Noronha, como agitador e marxista. Logo Ricardo, de poucas letras, influenciado por colegas agitadores profissionais. Li Menino de Engenho e Moleque Ricardo na pré adolescência. Eram os únicos livros de Ze Lins disponíveis na biblioteca pública de minha cidade natal, General Sampaio, no Ceará. Logo explicado o meu carinho especial carinho por esse autor. Demorei muitos anos para reler esses dois romances e depois conhecer o destino desses dois companheiros da minha própria infância triste, Carlos de Melo e Ricardo, através da continuação e conclusão da saga na leitura dos livros subsequentes, Doidinho, Bangue e Usina. São destino tristes e trágicos, que Ze Lins nao escrevia como a velha Totonia declamava os seus contos de fadas, príncipes e princesas. O material do Ze Lins era o humano, a realidade humana e essa sempre tende para o dramático e o trágico no final das coisas. Carlinhos finda sua história em Bangue, onde tendo herdado o engenho do avô, fracassa como administrador, não tendo a fibra necessária para a tarefa do campo nem o tino dos negócios. Sendo um barachel em direito, era um homem que passava o dia entre a leitura de jornais e livros, mau visto pela parentada e enganado pela caboclada ignorante. Termina falindo o engenho, mas não sai de cena com as mãos abanando pois repassa o engenho para o tio Juca por valor em dinheiro inferior ao que valeria se tivesse em pleno funcionamento. Era a "morte" simbólica de Carlos de Melo, que sequer é mencionado nas obras seguintes do autor. O próprio tio Juca, que sabotara o sobrinho na história anterior, e Ricardo, encontram seu destino em Usina. O tio Juca, no embate do engenho contra o poderoso usineiro de açúcar, contrai dívidas na tentativa de igualar as armas, modernizando os equipamentos, sofre sucessivas refregas e vai a falência. É a "morte" do Juca Paulino. Ricardo morre literalmente, pelo menos no papel, com uma bala nas costas. Tendo sido solto da cadeia em Noronha, regressa primeiro ao Recife e depois ao engenho, tendo se empregado como caixeiro do miserável comerciante que merceava para os empregados da usina. Durante uma tentativa de invasão do tal armazém, Ricardo encontra seu trágico destino na ponta de uma bala atirada pelas costas. José Lins do Rego não se acanhou de dar nomes reais aos seus personagens inventados ou quase inventados. Talvez pensasse que assim os homenagearia e os eternizaria. Conseguiu.
Comentários
Postar um comentário